Blog Prosa - O Globo - 16/03/2013
Mofento, excomungado, beiçudo, anjo rebelde, coisa-ruim. Enquanto proliferam as denominações populares para o dito demônio, poucos são os católicos que juram a sua existência e se comprometem a combatê-lo. A polêmica em torno do assunto é tão grande que pouco se sabe a respeito dos padres que desempenham esta função, e até mesmo declarações do exorcista oficial do Vaticano podem causar embaraço. Mas, apesar da controvérsia que ronda o assunto, o rito do exorcismo certamente não desaparecerá da agenda do recém-eleito Papa Francisco.
Muito popular nos séculos XVI e XVII, a figura do exorcista ligado à Igreja Católica começou a entrar em declínio com o avanço da ciência e foi finalmente relegada aos bastidores eclesiásticos com o Concílio Vaticano II, no início dos anos 1960. O encontro episcopal, que tinha como objetivo inserir a Cúria Romana nos novos tempos, estabeleceu que apenas sacerdotes expressamente autorizados pelo bispo local poderiam praticar o ritual. A decisão faria minguar o número de padres dedicados à tarefa.
— O Concílio deu uma nova orientação pastoral à Igreja e estabeleceu que todos os sacramentos deveriam ser reformados. O ritual do exorcismo foi o último a ser renovado, em 1999 — explica padre Jesus Hortal, estudioso do Direito Canônico. — Cada ritual tem uma finalidade. O do exorcismo é como outro qualquer. Só que na Igreja, em princípio, há uma desconfiança de que se trate realmente de um caso de possessão. Não vemos o capeta por todas as partes.
O exorcismo voltou à agenda oficial da Igreja com João Paulo II que, dois meses antes de morrer, emitiu uma diretiva através da Congregação para a Doutrina da Fé — departamento do Vaticano chefiado pelo então cardeal Joseph Ratzinger —, pedindo que cada bispo nomeasse ao menos um exorcista por diocese.
O elo de Ratzinger com o exorcismo não se restringiria ao episódio. No apagar das luzes de seu pontificado, ele recebeu do veterano padre Gabriele Amorth, com mais de 70 mil exorcismos no currículo, uma felicitação pelo apoio à causa. A declaração de Amorth, uma figura polêmica no Vaticano, não foi rebatida. Tampouco houve explicação sobre a natureza da dita reforma do exorcismo empreendida por Bento XVI.
Entretanto, Ratzinger foi o primeiro pontífice a agradecer publicamente o trabalho dos exorcistas quando, em 2005, congratulou-os pela batalha de reconquista das almas cristãs. “Encorajo-vos a continuar em seu importante ministério a serviço da Igreja”, disse na ocasião.
No livro “O último exorcista — Minha luta contra o Satanás”, publicado no ano passado, Amorth conta que o Papa teria exorcizado involuntariamente dois homens, na Praça São Pedro, em maio de 2009. A simples proximidade com o Pontífice os teria livrado da possessão. O Vaticano desmentiu Amorth, lembrando que Bento XVI não sabia das aflições dos homens.
Em dezembro de 2007, Amorth agradeceu a Bento XVI por ter mantido as diretivas estabelecidas por João Paulo II, apoiando a prática: “Graças a Deus, temos um Papa que decidiu lutar de frente contra o demônio”, disse Amorth.
Ainda no primeiro ano do pontificado de Bento XVI, o Ateneu Pontifício Regina Apostolorum, um centro universitário eclesiástico com sede em Roma, passou a formar, com autorização do Vaticano, padres aspirantes a exorcistas. O curso “Satanismo, exorcismo e oração da libertação”, com duração de dois meses, é dividido em sete áreas temáticas, que abordam o exorcismo sob o aspecto antropológico, fenomenológico, teológico, sociológico, histórico, científico e jurídico. O padre mexicano César Truqui, um dos organizadores das aulas, estima que 800 pessoas, entre elas uma dezena de brasileiros, já passaram por ali.
— A maioria dos exorcistas de hoje é autoditada e eles assumiram a função porque seu bispo os nomeou — explica o padre Truqui. — O maior desafio da Igreja hoje é formar exorcistas, que são como médicos especialistas.
Truqui conta que durante os quatros anos que acompanhou Amorth chegou a testemunhar “quatro ou cinco exorcismos por dia, sempre rápidos, não mais que 40 minutos”. Hoje, deixou Roma para ministrar o ritual na Suíça, onde, segundo ele, há uma enorme carência desta figura.
— Meu time é formado por dez pessoas. A cada sessão de exorcismo tento ter ao menos quatro pessoas ao meu lado, a maioria casais. Porque é muito comum dizerem que o exorcista está abusando da pessoa, principalmente se for uma mulher — justifica Truqui. — Como exorcista, você precisa se informar sobre o que aconteceu com a pessoa para entender se não são, na verdade, problemas psicológicos, que é o que ocorre na maioria das vezes.
Na Itália, onde a prática é mais bem aceita, muitos psiquiatras trabalham em parceria com exorcistas, encaminhando aos padres os casos que não se enquadram nos padrões científicos. Em 2005, a Associação Italiana dos Psicólogos e Psiquiatras Católicos estimou que mais de 5 mil italianos iam a um exorcista todos os anos.
— A primeira pessoa que se deve contactar é um psiquiatra, seja ele católico ou não. Mas um psiquiatra pode encaminhar um paciente para um exorcista se entender que a pessoa é normal e sã, sem outros sinais de distúrbio. Afinal, há fenômenos inexplicáveis — observa Hans Zollner, diretor do Instituto de Psicologia da Pontifícia Universidade Gregoria de Roma.
O ritual do exorcismo atual consiste basicamente em preces e leitura de textos bíblicos. O padre pode usar água benta, óleo sagrado e relíquias santas (pedaço de osso ou roupa de um santo) para espantar o diabo.
— Quando você põe esses objetos sobre a pessoa, é como queimá-la com fogo. O demônio não gosta, sofre muito — conta Truqui.
No Brasil, são poucas as dioceses que contam com padres exorcistas e não há qualquer informação sobre quantos existem. São Paulo e Rio já tiveram especialistas, mas após suas mortes ninguém os substituiu. Local de uma das maiores tragédias recentes do país, Santa Maria, no Rio Grande do Sul, conta com dois.
— O nosso bispo, dom Hélio, chegou com a informação de que o Vaticano tinha pedido que cada diocese tivesse ao menos dois exorcistas. Eu não queria assumir esse serviço, mas não tive escolha. É uma função que demanda muito tempo, porque quando os colegas pegam uma situação difícil, encaminham para a gente — lembra o padre Celito Mouro, há seis anos na função. — Só depois me dei conta do tamanho do sofrimento do povo por desconhecimento do demônio.
Mouro divide a tarefa com o padre Francisco Luiz Bianchin. Os dois costumam debater se o caso em questão é de fato da alçada dos exorcistas. Bianchin, que diz nunca ter visto um filme sequer sobre o assunto, é contra a supervalorização da figura do exorcista.
— Não é muito divulgado que existem os exorcistas, até para que a gente possa ter um pouco de serenidade. Para saber se o caso é de exorcismo é preciso estudar, averiguar os problemas e consultar antes um médico. A gente não banaliza. Entre a esquizofrenia e outras doenças psíquicas e a possessão não há um limite muito largo — diz Bianchin.
Após o incêndio na boate Kiss, que matou 241 pessoas, o trabalho dos dois religiosos como exorcistas tem ficado em segundo plano. As tarefas se concentram agora no apoio às famílias e jovens afetados pela tragédia. A paróquia onde Mouro atua fica a apenas 100 metros da boate incendiada em janeiro:
— Depois da tragédia, muitos jovens voltaram à Igreja, queriam saber como se rezava o terço. Santa Maria começa a renascer.
* Fonte:
http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2013/03/16/os-exorcistas-estao-voltando-490032.asp