O Globo - 21/07/2010
O dono do restaurante Rei do Bacalhau, na Ilha do Governador, Antônio Fernando da Silva, de 46 anos, preso nesta quarta-feira acusado de ser o mandante do assassinato de seu próprio pai e de outras três pessoas , também é suspeito de ter ordenado outras três execuções: a de um policial civil, que investigava a morte de seu pai; a de um advogado; e a de um garçom do Rei do Bacalhau. Dentro da operação batizada de Queima de Arquivo, a polícia investiga também Jacson Almeida Galo, amigo de Galvão. Mas ainda não há mandado de prisão contra ele.
Adotado e filho único, o comerciante teria encomendado a morte de seu pai, o português Plácido da Silva Mendes, por causa da herança: além do restaurante, um seguro de vida de R$ 2 milhões e uma previdência privada de R$ 8 milhões, que ele vem recebendo em parcelas de R$ 36 mil por mês.
Restaurante é fechado pela Cedae
Além de responder a inquérito pelos homicídios, Antônio vai ser indiciado por irregularidades nas notas fiscais do restaurante e por furto de água no estabelecimento.
Técnicos da Cedae foram, nesta quarta-feira, ao Rei do Bacalhau, após serem chamados por policiais da Delegacia de Defesa dos Serviços Delegados, que suspeitaram de adulteração no hidrômetro do restaurante. Os funcionários da estatal constataram que os selos do aparelho foram violados e o entregaram aos policiais, para perícia no Instituto de Criminalística Carlos Éboli. Por causa do “gato”, o restaurante foi multado e fechado.
Polícia encontra livros de magia negra na cada de Antônio
Segundo a 16ª DP (Barra da Tijuca), Antônio mandou matar Carlos Eduardo Galvão, o assassino do seu pai. Também teria sido morto, por ordem do comerciante, o gerente financeiro do Rei do Bacalhau, José Maurício de Almeida. Outra morte atribuída a Antônio é a do pai de santo Robson Luís Fonseca Ferreira, que, segundo a polícia, sabia dos crimes.
Acusado de ter executado as três vítimas, Márcio Pereira dos Santos, conhecido como Cachorro Louco, também foi preso nesta quarta-feira. Ele foi surpreendido pelos policiais no Morro da Coreia, em Mesquita.
No apartamento de Antônio, policiais encontraram muitas imagens relacionadas a cultos satânicos e livros de magia negra.
- A casa parecia um templo - contou delegado Rafael Willis Fernandez, da 16 DP.
O fio da meada para se chegar à acusação contra Antônio começou a ser puxado durante a investigação do assassinato, a tiros, do gerente José Maurício, em janeiro deste ano, na Barra. O delegado Rafael Willis descobriu que a vítima tinha sido morta num assalto simulado. Com o depoimento de testemunhas e escutas telefônicas, a polícia chegou a Antônio. Na segunda-feira, a prisão preventiva do comerciante foi decretada pelo juiz Fábio Uchôa, do 1º Tribunal do Júri. O magistrado faria uma audiência sobre a morte de Plácido em que Antônio deporia como testemunha. Com as investigações, o comerciante passou à condição de réu.
No dia 11 de setembro de 2007, Plácido, de 75 anos, então dono do Rei do Bacalhau, foi encontrado morto com uma facada no pescoço, em seu apartamento no Jardim Guanabara, na Ilha. De acordo com as investigações, ele foi golpeado ao virar as costas para o criminoso para ir à cozinha. Foram roubados um cordão de ouro e outras joias, um celular, uma pistola e dinheiro. O apartamento estava revirado quando uma empregada encontrou o corpo da vítima.
O delegado Rafael Willis afirmou que Antônio mandou matar o pai por causa da herança.
- Além de dar desfalques no caixa do restaurante, o filho se favoreceu do seguro do pai, que lhe rendeu cerca de R$ 2 milhões - afirmou.
Ainda de acordo com o policial, logo depois do crime, o matador contratado, Carlos Galvão, começou a achacar o comerciante, ameaçando revelar que ele mandara assassinar o próprio pai.
- Para se livrar do criminoso, ele (Antônio) contratou outro matador, o Cachorro Louco, que executou com vários tiros, em 2009, o assassino. Não satisfeito, o comerciante mandou matar em seguida o seu pai de santo, que já sabia muito sobre a história, pois Antônio teria confessado o crime para ele - informou Rafael Willis.
Ele disse que a morte do gerente foi encomendada porque a vítima estaria desconfiada dos desfalques no restaurante e ameaçava denunciar Antônio por sonegação fiscal, por causa de notas frias emitidas:
- Ele simulou uma tentativa de assalto na Barra. O comerciante não contava que íamos investigar o caso a fundo. Todos foram mortos como queima de arquivo.
* Fonte:
http://oglobo.globo.com/rio/mat/2010/07/21/dono-do-rei-do-bacalhau-da-ilha-do-governador-tambem-suspeito-de-mais-tres-assassinatos-917210645.asp